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Política

Machismo, política e conveniência: o que o debate recente em Sergipe revela sobre narrativas na esfera pública

Repercussão de fala de pré-candidato abre discussão sobre exposição de pessoas fora da vida pública e uso de pautas femininas em disputas políticas

Por Jornalista Isabela Oliveira ·

Imagem Reprodução/internet
Imagem Reprodução/internet

Nas últimas horas, em Sergipe, foi ampliado um debate em torno do machismo, do respeito às mulheres e do protagonismo feminino. O discurso começou girando em torno dessas pautas, mas uma pergunta essencial acaba sendo abafada: essa mobilização levantada por alguns setores políticos foi realmente sobre defender mulheres ou sobre transformar o episódio em ferramenta política?

A fala do pré-candidato ao Governo de Sergipe, Valmir de Francisquinho, foi inadequada, e é válida a crítica. Trata-se de uma declaração mal colocada e, por se tratar de uma figura pública, caberia inclusive um pedido de desculpas, já que a repercussão foi negativa. A cobrança, nesse sentido, é legítima.

Mas reduzir toda a discussão a esse episódio também significa ignorar um ponto anterior: a forma como determinadas narrativas políticas se constroem a partir da exposição de pessoas que não integram a vida pública.

Neste caso, o debate passou a girar em torno da esposa de Valmir de Francisquinho, que não ocupa cargo público e nunca demonstrou interesse em atuar na política. Ela possui sua própria história e representatividade, mas não faz parte do cenário político e não deveria estar sendo exposta dessa maneira. Ainda assim, acabou sendo inserida em uma narrativa política que, na prática, tinha como centro a disputa envolvendo seu esposo, que sim possui trajetória pública e deveria ser o foco dos questionamentos.

O contraste fica evidente quando se observa que mulheres com atuação consolidada na vida pública integram naturalmente o debate político justamente por ocuparem funções institucionais e exercerem mandatos. Essas, sim, estão submetidas às cobranças próprias da política e à avaliação pública.

A mulher deve, sim, ocupar espaço, ter voz, protagonismo e presença nos debates políticos. O que se questiona, nesse contexto, é o uso pontual da imagem feminina como instrumento de disputa, especialmente quando o centro real da controvérsia não é ela, mas o homem diretamente ligado a ela e envolvido na vida pública.

Nesse caso específico, a discussão não se consolidou em torno da valorização do protagonismo feminino, mas sim do uso desse momento dentro de uma disputa política já existente, utilizando a presença da mulher como elemento estratégico de desgaste político contra o esposo dela.

É nesse ponto que o debate precisa ser tratado com mais cuidado.

No fim, o episódio que deveria gerar uma discussão sobre respeito às mulheres acabou revelando muito mais sobre os interesses políticos que orbitam esse debate.