Bahia
PMs presos e grupo de extermínio revelado: o desfecho da chacina de cinco moradores de rua que chocou Salvador
Crime ocorrido em 2012 no bairro da Boca do Rio resultou em investigação que apontou envolvimento de policiais militares
Por Redação LuandêFM ·

A chacina que deixou cinco pessoas em situação de rua mortas no bairro da Boca do Rio, em Salvador, ficou marcada como um dos episódios mais violentos registrados durante a greve da Polícia Militar da Bahia em 2012. O crime provocou forte repercussão na época e desencadeou uma investigação que apontou o envolvimento de policiais militares suspeitos de integrar um grupo de extermínio.
O ataque ocorreu na madrugada de 3 de fevereiro de 2012, quando homens armados chegaram até a Avenida Jorge Amado e abriram fogo contra um grupo de pessoas que dormia ou estava reunido no local. Cinco vítimas morreram e outras duas ficaram feridas. O episódio aconteceu em meio ao período de paralisação parcial da Polícia Militar no estado, quando Salvador e cidades da região metropolitana registravam aumento significativo nos índices de violência.
Logo após o crime, testemunhas relataram que os autores chegaram ao local armados e atiraram contra as vítimas de forma direta, levantando suspeitas de execução. A investigação ficou sob responsabilidade do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa, que passou a apurar a possível participação de policiais militares no ataque.
Poucos dias depois da chacina, dois soldados da Polícia Militar foram presos suspeitos de participação no crime: Donato Ribeiro Lima, de 47 anos, e Willen Carvalho Bahia, de 34. Donato foi detido em casa, no bairro de São Caetano, onde agentes apreenderam munições, celulares e outros materiais. Já Willen foi localizado e preso no próprio local de trabalho, no Comando de Operações da Polícia Militar, no bairro dos Aflitos.
Na época, os dois eram lotados na 39ª Companhia Independente da Polícia Militar, responsável pelo policiamento da região onde ocorreu o ataque. Apesar de terem sido presos inicialmente, ambos foram liberados pela Justiça para responder em liberdade. Posteriormente, novos mandados de prisão foram expedidos, e Willen chegou a permanecer foragido por alguns meses até se apresentar às autoridades em janeiro de 2013.
As investigações também apontaram a participação de outros dois policiais militares, identificados como Samuel Oliveira Menezes, conhecido como Marrom, e Jair Alexandre Silva dos Santos. Marrom se apresentou às autoridades dias após o crime e teve sua arma funcional recolhida para perícia. Ele já era investigado por suspeita de envolvimento em diversos homicídios na capital baiana. Jair também acabou se entregando e foi preso.
De acordo com a Polícia Civil, os quatro soldados eram investigados por integrar um possível grupo de extermínio que atuava na cidade. Além da chacina da Boca do Rio, os policiais passaram a ser relacionados a outros crimes violentos, incluindo um triplo homicídio registrado no bairro da Engomadeira no mesmo período. Testemunhas afirmaram que, nesse caso, os autores teriam se identificado como policiais antes de executar as vítimas.
A polícia também apurou suspeitas de que os agentes participavam de serviços clandestinos de segurança para comerciantes e até traficantes em alguns bairros de Salvador.
Com o avanço das investigações ao longo de 2012 e início de 2013, os policiais foram sendo presos gradualmente. Em janeiro daquele ano, três deles já estavam custodiados no Batalhão de Choque da Polícia Militar, em Lauro de Freitas, enquanto outro integrante ainda era procurado.
Após a prisão do último suspeito e o surgimento de novas denúncias, a Polícia Civil conseguiu relacionar o grupo a outros assassinatos na capital baiana. O inquérito sobre a chacina foi concluído e encaminhado à Justiça.
O caso da chacina da Boca do Rio permanece como um dos episódios mais graves de violência contra pessoas em situação de rua em Salvador. A repercussão do crime foi ampliada pela suspeita de participação de agentes do próprio Estado nas execuções e pela ligação do grupo com outros homicídios registrados na cidade.